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MESSIAS ROCHA Sábado, 17 de Fevereiro de 2018, 03:23 - A | A

17 de Fevereiro de 2018, 03h:23 - A | A

MESSIAS ROCHA / MESSIAS ROCHA

INTERVENÇÃO FEDERAL: SEGURANÇA, POLÍCIA, POLÍTICA E VERDADES

Messias Rocha
Nova Mutum



Após passar apenas 8 ou 9 horas desconectado da internet, as 20 horas quando saia da academia li a mensagem de um amigo – Jaderson Marques – me perguntando espantado sobre a intervenção militar que acabara de acontecer. Ao ler aquilo fiquei muito assustado; não digo que fiquei chocado porque essa é uma expressão utilizada mais por um certo seguimento do qual não faço parte rs. Brincadeira à parte, voltemos. Não sabia se refletia sobre a gravidade atual de se ficar desligado do mundo por apenas 10 horas, ou se arrumava as malas pra sumir do Brasil enquanto podia. Decidi verificar a procedência do infortúnio e descobri que meu amigo havia se enganado no entendimento ou na digitação: tratava-se de uma intervenção federal no Rio de Janeiro, especificamente na segurança pública daquele desse Estado, e não de uma intervenção militar.

Ufa, menos mal, e menos mal ainda seria se o nosso “ilustríssimo” presidente não estivesse inovado mais uma vez e inventado o tal do “interventor federal de natureza militar”. Mas isso é assunto para outros, mais gabaritados que eu. Por hora, ainda atendendo ao pedido do estimado amigo Jaderson, quero apenas lançar luz – ou pontos de interrogação – sobre a efetividade dessa alternativa no médio e longo prazo. Obviamente que nenhum espirito minimamente sensato diria que a iniciativa de intervir na segurança pública no Rio de Janeiro seria desnecessária. É como bem disse o Presidente da ONG Viva Rio, Rubem César: “alguma coisa tinha que ser feita”; e ainda o Presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima: “o Rio não pode perder essa oportunidade”. Os números são inquestionáveis e temerosos: em dois anos houve nove vezes mais mortes violentas que na cidade de Londres. Enquanto a cidade londrina tem 500 policiais para apurar uma média de 100 casos de homicídio anuais, o Rio de Janeiro tem em sua DHPP com um efetivo total de 208 policiais – incluindo Delegados, Escrivães e Investigadores – para apurar 1.300 casos todo ano. O que a intervenção federal representa nesse contexto?

Nada. Isso mesmo, nada. Ainda que o paragrafo único do artigo 1º do decreto de intervenção diga que o objetivo é “pôr termo a grave comprometimento da ordem pública no Estado do Rio de Janeiro”, muito provavelmente nem isso irá acontecer, ainda que a despeito de agora os cariocas poder contar com dois governadores! Talvez no primeiro momento a maioria dos criminosos evitem o confronto e tentem fugir, eles não irão muito longe – até porque o Rio é territorialmente minúsculo –  e terão que guerrear. Imaginemos o desfecho ideal desse duelo: os bandidos que não morreram se entregaram e foram presos. Por que poderíamos pensar que isso resolveria o problema se os presídios são os verdadeiros QG do crime organizado? A intervenção federal não vai proporcionar as mudanças estruturais de que nosso país tanto necessita na Segurança Pública. Poderia aqui fazer uma lista enorme e discutir cada uma delas, mas como para bom entendedor meia-palavra basta quero apenas lembra-los de que apenas o Brasil e mais dois mini países africanos possuem esse modelo de duas policias no mesmo nível hierárquico desempenhando trabalhos diferentes, mas complementares. Só para ilustrar o quanto estamos atrasados nesse setor, lembremos de Portugal. O Brasil copiou o modelo de policia de Portugal, este país é nada mais que o menos desenvolvido da Europa, e até eles – os lusitanos – já mudaram a estrutura policial e nós estamos aqui nessa situação na qual a polícia que esta o tempo todo na rua quando depara com um crime não pode investigar – nem preliminarmente –  tem que passar para a outra polícia sempre carece ou de baixo efetivo (como é o caso da DHPP do Rio), ou de estrutura-equipamentos insuficientes, ou não possui o mesmo grau de informação que a policia militar possui.

Portanto, pode-se dizer – com segurança – que dobrar ou triplicar o efetivo policial nas ruas do Rio de Janeiro por um, dois ou dez meses, ainda que proporcione uma imediata sensação de segurança na população, não passará de mais um enxuga-gelo dos nossos gestores. Afinal, as leis continuarão as mesmas e a sensação de impunidade também; as estruturas policiais militar e civil continuarão as mesmas, e as disputas de ego – que tanto atrapalham a eficiência do serviço – entre elas também continuarão; os lideres das organizações criminosas continuarão lá organizando seus estados paralelos; e todos os interessados na continuidade da violência e criminalidade, continuarão a existir, e não os subestime, embora alguns deles sejam invisíveis, num apanhado geral esses aí – muitas vezes travestidos de cordeiros – formam o maior de todos os grupos de resistência. Eles não usam fuzil e nem pistola, mas são os mais nocivos de dos agentes da miséria humana que descamba em violência, criminalidade e muita tristeza. Apenas e tão somente o aumento da consciência politica generalizada pode mudar esse estado de coisas.

Messias Rocha.  

Investigador de Polícia em Nova Mutum. PCJ – MT.

Filiado ao Partido Democrático Trabalhista – PDT.                   

 



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